Bolsonaro pode ser preso se virar réu? Os bastidores, o teatro do poder e a encruzilhada jurídica que pode selar o destino do ex-presidente
Por Redação Sul SC| Exclusivo para quem não engole fake news nem golpe em fralda de general
Se a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) aceitar a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), Jair Messias Bolsonaro vai oficialmente de ex-presidente da República a réu por uma das acusações mais graves já imputadas a um chefe de Estado desde a redemocratização: tentativa de golpe de Estado. A pergunta que não quer calar — e que assombra a base bolsonarista — é: ele pode ser preso? A resposta curta é sim, mas a longa envolve um labirinto jurídico, político e institucional que, se não for bem explicado, vira combustível para mais uma live recheada de desinformação.
Imagens/Ilustrativas
De líder eleito a réu por tentativa de golpe: onde foi que perdemos a mão?
Bolsonaro, que já está inelegível até 2030 por abuso de poder e ataques sem provas ao sistema eleitoral, agora encara um novo pesadelo: cinco crimes que, somados, podem levá-lo a uma pena de até 43 anos de cadeia. É isso mesmo: 43 anos. Entre as acusações estão tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, organização criminosa armada e até deterioração de patrimônio tombado.
Mas calma: antes de começar a planejar visitas no presídio da Papuda, é preciso entender que o caminho até a prisão é longo, tortuoso e recheado de manobras jurídicas, recursos e narrativas políticas.
O processo: passo a passo da queda de um ex-presidente
Denúncia aceita? Bolsonaro vira réu.
Começa a ação penal: defesa apresenta contestações, provas são produzidas, testemunhas ouvidas.
Alegações finais: o Ministério Público dá o parecer final e o ministro relator (ou a Turma) dá a palavra final sobre a culpa.
Condenação? Aí sim Bolsonaro pode ser condenado — mas recorrerá.
Prisão? Só depois de esgotados os recursos. Ou antes, se houver prisão preventiva, o que exige risco de fuga ou obstrução.
O contra-ataque da defesa: delação furada e narrativa ensaiada
O advogado Celso Vilardi, defensor do ex-presidente, partiu pra cima. Argumentou que a denúncia é baseada exclusivamente na palavra do delator Mauro Cid, ex-ajudante de ordens que virou a chave e contou tudo que sabia (ou quase tudo, segundo a própria PF). A defesa ainda crava que não houve ameaça real nas falas de Bolsonaro e que o julgamento deveria ocorrer no plenário do STF, e não na Primeira Turma.
A defesa tenta construir a imagem de um perseguido político, investigado até os ossos e, segundo eles, sem provas reais de envolvimento com os atos de 8 de janeiro. Só que a PGR lembra que não precisa haver vínculo direto com os vândalos que depredaram Brasília: participar da trama golpista anterior já é suficiente.
Os bastidores da conspiração: reuniões, generais e uma minuta de dar vergonha
O inquérito da PF revela uma história digna de série da Netflix (ou de uma CPI bem roteirizada): Bolsonaro teria reunido ministros, militares e aliados em dezembro de 2022, para discutir a aplicação de um golpe e impedir a posse de Lula. A famosa “minuta do golpe” teria sido lida por Filipe Martins, com apoio declarado de Almir Garnier (então comandante da Marinha) — enquanto o Exército e a Aeronáutica recuaram. O que nos livrou do golpe foi a recusa de dois comandantes militares, e não a falta de vontade política da cúpula bolsonarista.
Críticas duras: onde o sistema político falhou?
O fato de um ex-presidente eleito com quase 58 milhões de votos ser investigado por tentativa de golpe é um fracasso histórico da democracia brasileira. Não basta culpar só Bolsonaro — é necessário olhar para a complacência de instituições, o silêncio de aliados e a tolerância da sociedade com o autoritarismo disfarçado de “liberdade”.
Bolsonaro normalizou o discurso de ruptura. Alimentou dúvidas sobre as urnas, desacreditou o TSE, flertou com militares e — mais grave — não impediu quando seus seguidores foram ao extremo. Isso é omissão ou incentivo?
E pior: há quem ainda trate tudo como “exagero da mídia”. Mas os depoimentos de generais, a minuta impressa em papel timbrado e a logística golpista organizada revelam que o abismo democrático estava logo ali. Faltou um passo — e foi por pouco.
O que esperar agora?
O STF tem uma chance histórica de mostrar que ninguém está acima da Constituição. Mas a pressão política será colossal. Se Bolsonaro for condenado, teremos não só uma crise política, mas um precedente duríssimo para o bolsonarismo. Se for absolvido, a narrativa de perseguição se fortalecerá, e os defensores da ruptura ganharão fôlego. Por enquanto, ele não está preso. Mas está acuado. E, em política, acuado é igual a imprevisível.
Conclusão:
Bolsonaro não caiu porque quis. Caiu porque seu projeto de poder não sobreviveu à realidade das urnas e à força (ainda que frágil) das instituições. O julgamento não é só sobre ele — é sobre o Brasil que queremos: com ou sem golpe, com ou sem responsabilidade.